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Economia Solidária e Economia Criativa se encontram em debate inaugural que marca lançamento de projeto em cinco cidades paulistas

O Instituto Paul Singer realizou, no dia 26 de novembro, o primeiro encontro do projeto Economia Solidária e Economia Criativa – Interfaces, iniciativa que nasce para mapear, valorizar e fortalecer experiências municipais que unem arte, cultura, trabalho coletivo, inclusão produtiva e práticas criativas. O lançamento, transmitido ao vivo, reuniu especialistas, lideranças comunitárias e representantes de coletivos culturais, criando um espaço de diálogo sobre caminhos possíveis para integrar esses dois campos que, embora distintos, se encontram intensamente nos territórios. 

A mesa principal contou com três convidados de referência nacional: Camila Capacle, doutora em Ciências Sociais e Chefe da Divisão de Promoção da Economia Criativa e Solidária de Araraquara; Simão Pedro, sociólogo, ex-deputado estadual e defensor histórico da economia solidária; e Célio Turino, historiador, escritor e idealizador dos Pontos de Cultura no Brasil. A mediação foi conduzida por Bia Schwenck, pesquisadora do Instituto Paul Singer e coordenadora metodológica do projeto. Segundo ela, não era possível falar de desenvolvimento territorial sem falar de cultura. “Ela atravessa tudo, identidade, pertencimento, trabalho, organização comunitária. A cultura é a linguagem do território”, comentou.

Cultura, políticas públicas e modos de produzir vida

A mesa foi aberta por Marcelo Justo, diretor-executivo do Instituto Paul Singer, que contextualizou o surgimento do projeto. Segundo ele, a iniciativa nasceu do desejo de aprofundar o estudo sobre legislações e experiências de economia solidária no país. Em sua fala, Justo ressaltou que, nas periferias do Brasil, é comum que iniciativas culturais se tornem “amálgamas de práticas sociais transformadoras”, ligando experiências de agroecologia, educação popular, cooperativismo e produção artística. 

O debate avançou para experiências concretas e para a pergunta: o que acontece quando políticas públicas, cultura viva e trabalho coletivo se encontram no território? Camila Capacle apresentou o caso de Araraquara, no interior do estado de São Paulo, referência nacional na institucionalização de políticas que articulam economia solidária e economia criativa. Ela destacou como os saberes dos territórios podem apontar caminhos de inovação social e cultural que se baseiam na autogestão. “Isso foi o que estruturou as políticas desenvolvidas no município. As experiências compartilhadas mostraram que é possível inovar sem precarizar e criar sem individualizar. Isso pode gerar renda sem romper com o tecido social e comunitário”, apontou.

Simão Pedro seguiu na mesma direção ao reforçar que marcos legais e políticas permanentes são cruciais para transformar práticas locais em modelos de país. Ele retomou sua trajetória parlamentar e suas experiências no movimento, afirmando que economia solidária não é apenas alternativa de renda. Para ele, pensar cultura, criatividade e produção simbólica dentro desse ecossistema é reconhecer que formas de criação também são formas de trabalho e pertencimento. “É um projeto social de reorganização das relações de trabalho, baseado em cooperação e democracia”. 

Célio Turino, por sua vez, recuperou a centralidade da cultura como forma de organização social, lembrando o impacto histórico dos Pontos de Cultura e a potência das redes comunitárias. “A cultura é o cimento das experiências democráticas. Quando você investe na vida cultural de um território, você fortalece a sua possibilidade de organização solidária”, afirmou. Para ele, a cultura nunca foi apenas expressão artística: é memória coletiva, identidade, circulação de saberes e, sobretudo, um modo de produzir vida em comum. Célio também ressaltou que economia solidária e economia criativa se encontram naquilo que ambas preservam: a comunidade como força motora.

Onde Economia Solidária e Economia Criativa se encontram

O encontro enfatizou ainda como as economias, embora operem sob lógicas diferentes, se encontram diariamente nos territórios. Bia Schwenck destacou que a criativa, que hoje representa cerca de 3% do PIB brasileiro, envolve setores como música, design, audiovisual, gastronomia e artesanato. Enquanto a solidária se ancora em autogestão, cooperação e distribuição justa da riqueza. E é no cotidiano das trabalhadoras e trabalhadores que as interfaces emergem, integrando desde artesãos e coletivos de gastronomia comunitária, a bordadeiras e cineastas que criam a partir de seus bairros.

Os convidados ressaltaram que aproximar esses campos exige políticas públicas integradas, editais que dialoguem com realidades comunitárias, formação continuada que una criatividade e autogestão e estruturas que dêem continuidade às iniciativas, evitando que elas dependam apenas de boa vontade, voluntarismo ou conjunturas favoráveis. A convergência aparece justamente nos territórios híbridos, onde cultura é também economia, e onde economia só existe porque há cultura.

Curta exibido nos encontros traz à tona o debate sobre o projeto. Está disponível no YouTube, assim como a live completa.

Uma roda ampliada: falas dos territórios

O encontro também abriu espaço para um diálogo com representantes de iniciativas locais. Renata Reis (Coletivo Kalundu), destacou como cultura, ancestralidade e produção comunitária caminham juntas em Diadema. Vera Santana, pesquisadora do Rio Grande do Norte, falou sobre a força dos patrimônios imateriais como motores de pertencimento e economia local. Edna Simão, da Atemdo (Associação de Trabalhadores em Domicílio da Economia Solidária), trouxe um cuidado importante ao lembrar que a aproximação entre economia solidária e economia criativa precisa considerar limites e princípios. Por fim, Ana Cristina Cassiano, do Instituto Janela Aberta, compartilhou experiências de São Carlos em que cultura viva, educação popular e organização comunitária se complementam.

As falas iluminaram as tensões e potências concretas do tema, mostrando que as interfaces entre economia solidária e economia criativa não são abstratas: elas já acontecem, com desafios e invenções próprias, nas cidades, nos coletivos, nos grupos de mulheres, nos espaços culturais e produtivos.

O seminário revelou que o projeto não nasce para oferecer respostas prontas, mas para abrir caminhos, como sintetizou Bia ao final. “Nosso desafio é entender como esses campos se fortalecem mutuamente e até onde não dá. É abrir as cartas na mesa, ouvir quem vive a prática e construir juntos”, conclui.

O que vem pela frente

O lançamento também apresentou o desenho completo do projeto, que agora segue para suas próximas etapas em cine-debates por cinco cidades paulistas:

05/12 — 10h: São Paulo

Agência Solano Trindade — Rua Batista Crespo, 105, Campo Limpo.
Parceria com: Agência Solano Trindade

06/12 — 14h30: Diadema

Centro Cultural Taboão — Av. Dom João VI, 1393.

Parceria com: Coletivo Calundu

12/12 — 9h: Araraquara

Auditório do SEBRAE — Av. Maria Antonia Camargo de Oliveira, 2903.

Parceria com: Coletivo Mãos que Criam

15/12 — 18h30: São Carlos

Centro Público de Economia Solidária Herbert de Souza “Betinho” — Rua José Bonifácio, 885.

Parceria com: Instituto Janela Aberta e Fórum Municipal de Economia Solidária de São Carlos

17/12 — 12h30: Osasco

SENAC Osasco — R. Dante Batiston, 248.

Parceria com: ATEMDO- Associação de Trabalhadores em Domicílio da Economia Solidária

Texto de Marcus Oliveira.

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