Anterior

Entre territórios, saberes e políticas públicas: projeto revela caminhos para aproximar economia solidária e economia criativa em São Paulo

Iniciativa do Instituto Paul Singer percorreu cinco cidades paulistas, reuniu mais de 100 participantes e aponta seis práticas estruturantes para fortalecer modelos econômicos baseados na coletividade e na cultura

Em um momento em que a economia criativa ganha espaço nas políticas públicas e no debate sobre desenvolvimento, o projeto Economia Solidária e Economia Criativa – Interfaces, conduzido pelo Instituto Paul Singer, propõe uma inflexão importante: quais são os caminhos possíveis para que economia solidária e economia criativa se encontrem e se fortaleçam?

Essa é a pergunta que atravessa o projeto, realizado entre outubro de 2025 e março de 2026. A iniciativa combinou pesquisa, análise de legislações, conversa com gestores, trabalhadores, lideranças e especialistas, além de encontros presenciais em cinco cidades paulistas para investigar como esses dois campos podem dialogar, se fortalecer e, sobretudo, não se anular.

O resultado é um relatório que não apenas sistematiza dados, mas revela tensões, aproximações e caminhos possíveis. Como sintetiza o documento, o desafio central está em equilibrar dois movimentos simultâneos: o crescimento da economia criativa como vetor econômico e a preservação das formas coletivas de geração de renda da economia solidária, que escapam da lógica tradicional de mercado.

Um projeto que nasce do encontro

Mais do que um estudo técnico, o projeto se constrói como experiência viva. A metodologia adotada pelo Instituto Paul Singer aposta na pesquisa-ação, articulando levantamento teórico com escuta ativa de trabalhadores, gestores públicos e agentes culturais.

“A metodologia de trabalho do Instituto Paul Singer aposta na pesquisa-ação, no encontro de diferentes saberes que se complementam e contribuem para que tenhamos um olhar completo da realidade de cada território”, explica a pesquisadora responsável pela mediação dos encontros, Bia Schwenck. “Os cine-debates foram espaços de muita troca e podem ser semente da organização nas cidades.”

Ao todo, 115 pessoas participaram diretamente das atividades, realizadas em São Paulo, Diadema, Araraquara, São Carlos e Osasco, cidades que são referência de políticas públicas municipais de economia solidária no estado e que têm, nos últimos anos, experimentado essa aproximação no campo das políticas municipais voltadas para o fortalecimento da cultura e da economia criativa. Em cada cidade, o projeto se ancorou em organizações locais e promoveu cine-debates como ferramenta de mobilização e reflexão coletiva.

Cinco cidades, cinco retratos do território

Os encontros realizados nos territórios dão corpo à discussão. Em São Paulo, o projeto teve início na Agência Solano Trindade, espaço histórico de organização cultural periférica da Zona Sul, também conhecido como “território das artes”. O encontro reuniu diversos movimentos sociais e trouxe à tona a força da cultura como elemento estruturante da economia solidária. A imagem dos consórcios agroecológicos, diferentes espécies crescendo juntas, sintetizou o espírito do debate.

Em Diadema, no Centro Cultural Taboão, em parceria com o Coletivo Calundu, o diálogo ganhou forma concreta em uma feira de artistas locais. Ali, ficou evidente que muitas práticas da economia solidária já existem no cotidiano cultural, mesmo sem serem nomeadas como tal. A autogestão e a horizontalidade aparecem como prática antes de conceito.

Já em Araraquara, em parceria com o Coletivo Mãos que Criam, grupo com cerca de 18 anos de atuação que reúne artesãs e artesãos, o debate foi atravessado pelo papel de organizações estatais, como universidades e apoiadores, por políticas públicas e seus desafios. A descontinuidade de programas e o abandono de espaços públicos contrastaram com a mobilização popular que impulsiona iniciativas como a lei municipal de feiras, que aponta caminhos de organização coletiva e transparência.

Em São Carlos, o encontro teve caráter simbólico ao integrar a reunião do Fórum Municipal de Economia Solidária e as celebrações do Dia Nacional da Economia Solidária. Com forte participação, o debate reforçou a importância de preservar os princípios do campo mesmo diante da aproximação com a economia criativa.

Por fim, em Osasco, em parceria com a ATENDO – Associação de Trabalhadoras em Domicílio da Economia Solidária, o ciclo se encerrou com um mergulho na memória. A retomada da Conferência Nacional de Economia Solidária e Cultura, realizada na cidade em 2010, mostrou que essa aproximação não é nova, mas segue atual diante dos desafios contemporâneos.

O que o relatório revela: seis caminhos possíveis

A análise consolidada do projeto identifica seis práticas consideradas estratégicas para aproximar economia solidária e economia criativa.

As feiras aparecem como eixo central, consideradas espaços não apenas de comercialização, mas de fortalecimento comunitário e circulação de saberes. São um potencial ponto de encontro para atores da economia solidária e da economia criativa se conectarem e aprofundarem projetos comuns, principalmente quando construídos coletivamente.

Por fim, o relatório apresenta a experiência de espaços de escuta e diálogo em que atores locais e destaca o papel das incubadoras públicas, que articulam formação, apoio técnico e redes de cooperação, e que podem se fortalecer se aproveitarem o acúmulo de experiências de incubação popular de artistas que dialogam com a realidade desses trabalhadores. 

Conselhos e fundos municipais aparecem como instrumentos de participação democrática e financiamento contínuo. Já as legislações, mapeadas pela pesquisa e identificadas pelos atores locais, demandam o esforço de regulamentação, o que garante a existência de recursos e continuidade às políticas públicas para além das mudanças de gestão.

Um outro ponto destacado são  os arranjos produtivos locais, que estimulam a cooperação entre diferentes setores, e que podem ser oportunidades de pontes entre iniciativas culturais e o trabalho desenvolvido nos empreendimentos econômicos solidários. 

Por fim, o relatório apresenta a experiência de espaços de escuta e diálogo em que atores locais participam da elaboração de editais de fomento e financiamento, reforçando a importância de democratização desses processos diante das barreiras burocráticas que ainda afastam coletivos populares do acesso a recursos.

Mais do que a identificação de boas práticas que o projeto pode mapear, esses caminhos apontam para um modelo de desenvolvimento territorial solidário que tem na cultura um eixo transversal

O relatório completo aprofunda elementos que vão além da síntese. Entre eles, o detalhamento das experiências locais e seus limites, a análise histórica das políticas públicas nos municípios e, sobretudo, a complexidade da relação entre economia criativa e economia solidária, marcada por disputas de sentido e diferentes visões de desenvolvimento.

O documento evidencia, por exemplo, que a economia criativa, muitas vezes associada a lógicas de mercado e individualização, pode tensionar princípios centrais da economia solidária, como autogestão e cooperação. Ao mesmo tempo, aponta que essas tensões não inviabilizam o diálogo, mas exigem mediação política e conceitual.

Um horizonte possível

Ao longo do projeto, uma questão atravessa todas as discussões: como aproximar economia solidária e economia criativa sem que uma descaracterize a outra? Para o diretor executivo do Instituto Paul Singer e coordenador do projeto, Marcelo Justo, o caminho passa pelo reconhecimento das raízes comuns.

“O projeto resgatou uma história da economia solidária de que ela sempre andou junto com a cultura. Além disso, conseguimos reunir artistas populares e artesãs que não conheciam a economia solidária e se interessaram pelo tema.”

Ele destaca, no entanto, que o processo não está livre de conflitos. “Também não faltaram visões críticas a certo avanço do campo da economia criativa em detrimento da economia solidária. Porém, predominou o debate entre as duas concepções.”

Ao final, o relatório aponta para um horizonte que não é apenas técnico, mas político e simbólico. Nos territórios, a cultura não se limita à geração de renda. Ela produz identidade, pertencimento e mobilização. Já a economia solidária propõe uma reorganização das relações baseada na cooperação e na igualdade.

A aposta do projeto é que, quando articuladas, essas dimensões podem sustentar um modelo de desenvolvimento solidário mais enraizado, democrático e sustentável. Não como tendência, mas como prática já existente. Não como promessa, mas como construção coletiva em curso.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *